Nosso objetivo é desaparecer
Desde as CUIs (Command-line User Interface), passando pelas GUIs (Graphical User Interface), e indo na direção das NUIs (Natural User Interface), registrou-se um aumento impressionante no uso do computador como ferramenta de suporte de tarefas principalmente cognitivas, e ao mesmo tempo, uma diminuição gradativa do computador.
Não é preciso ser historiador das ciências da computação ou profundo conhecedor da Interação Homem-Computador para perceber como o computador está em todo lugar atualmente. A revolução digital (clichê) já aconteceu e a computação ubíqua (o computador em todo lugar) se mostra cada vez mais próxima. Mas ao mesmo tempo, cada vez mais, o computador (tanto o hardware quanto o software) têm ficado mais invisivel para o usuário. Se o computador tem sido cada vez mais usado, ele também tem cada vez mais desaparecido.
Se no início, apenas os programadores mais cabeçudos conseguiam mexer nos enormes mainframes, atualmente existe um grande segmento do mercado (desde os miguxos que não param de enviar SMS até executivos de meia-idade interessados em monitorar o preço das ações) esperando pelo iPhone chegar no Brasil. E não se trata apenas de diferenças de tamanho da máquina que realiza as computações, mas principalmente do modelo de interação entre esses paradigmas e do que está no centro (foco) dessas interfaces. Enquanto nas CUIs, o usuário era obrigado a aprender a escrever uma nova linguagem arbitrária, no iPhone, até um bebê consegue brincar. Ao invés de obrigar o usuário a aprender uma nova linguagem, é de se esperar (regra básica de usabilidade) que o desempenho da tarefa seja muito mais natural, se utilizarmos uma linguagem que ele já domine.
Nesse sentido, a história das tecnologias de informação e comunicação tem demonstrado que quanto menos interface, mais livre o usuário estará para alcançar seus objetivos. A interface, vista por esse ângulo, é algo extremamente negativo, funcionando como uma corrente que prende e atrasa o usuário. Quanto mais visível for as informações ou as funcionalidades (o motivo do usuário usar o software, no final das contas), mais escondida será a interface. Quanto mais invisível a interface, mais natural será o modelo de interação, melhores níveis de desempenho (eficácia e eficiência) serão alcançados na tarefa, e mais satisfatório será o uso do software. Sendo assim, o objetivo de qualquer user experience designer (arquitetos da informação, designers de interação, designers de interface etc.), deveria ser o de sumir, de fazer o seu trabalho ficar invisível para o usuário. Sabe aquelas interfaces que mais chamam a atenção? São exatamente elas que na grande maioria das vezes, são apenas decoração e depois de pouco tempo, revelam ter graves problemas de usabilidade. Um dos fatores de destaques dos aplicativos web 2.0 (ou RIAs ou seja lá como vamos chamá-los) em comparação aos antigos aplicativos que se utilizavam do modelo de hipertexto é justamente a forma mais natural do usuário interagir com a interface e dela ir sumindo aos poucos.
Tufte, um dos gurus da área de design de informação, em seu livro The Visual Display of Quantitative Information, criou o conceito de taxa de tinta de dados (data-ink rate), que significa a proporção da tinta de um gráfico empregada para exibição de informação. Esse conceito pode ser demonstrado matematicamente nas fórmulas:
- 1.0 - proporção do gráfico que pode ser apagado sem perda de informações (redundância e elementos gráficos que não representam nenhum dado)
- Tinta de dados / total de tinta para imprimir o gráfico
Tufte fala para maximizar a taxa de tinta de dados dentro do possível, com o objetivo de aumentar a expressividade e a efetividade destas visualizações. Para ele, todo pedaço de tinta requer uma razão, e na grande maioria das vezes, esta razão deve ser a de apresentar informação. Gráficos devem direcionar a atenção do observador para o significado daquela representação. Um gráfico, acima de tudo, deve mostrar os dados.
Indo da mídia impressa para a mídia digital, Stephen Few traduz a afirmação do Tufte para o design de dashboards, criando o conceito de data-pixel ratio, ou seja, taxa de pixels de dados.
O conceito pode ser emprestado e utilizado na área de User Experience Design. Quanto maior a taxa de informação (conteúdo ou funcionalidade, dependendo do objetivo do aplicativo, site etc.), mais invisível a interface, e mais natural o tipo de interação e o desempenho da tarefa pelo usuário. Nosso objetivo então não é o de ganhar o Cannes ou virar case de originalidade, mas justamente o contrário, o de desaparecer.
11 comentários para “Nosso objetivo é desaparecer”
[...] Ps. Este post também está disponÃvel aqui. [...]
Resumindo (em minha opinião): a Interface é um interprete. Ela “fala” uma linguagem que o usuário conhece e traduz para uma linguagem que o computador conhece. Obviamente, quanto menos você precisar deste interprete melhor a comunicação.
Os usuários conhecem “a linguagem das interfaces” por convenções. Hoje em dia todos sabem como funciona uma barra de Scroll por exemplo (uma das melhores convenções de UI para mim). O interessante da evolução é notar que, no lugar de ensinar os usuários, o que se busca agora é ensinar os computadores.
Por fim, eu acho que num futuro não muito distante veremos o Mouse como algo totalmente ultrapassado.
Excelente o artigo. Parabéns!
Oi Beck,
Na minha opinião, dificilmente a gente acharia uma metáfora melhor. Numa conversa entre 2 pessoas de diferentes idiomas, que estivesse sendo intermediada por uma terceira pessoa, quanto menos esta aparecesse, mais fluído seria o diálogo, fazendo com que os participantes possam focar no que realmente importa, no conteúdo das mensagens, ao invés da interpretação. Acho que esse “princípio do desaparecimento” também deve guiar a própria prática da interpretação, enquanto atividade profissional (lembrei das conferências da ONU, onde o interprete fica literalmente fora da visão dos envolvidos na conferência).
Valeu pelo incentivo!
[]s!
Não entendi picas deste post. Seria falta do que escrever e então temos pseudos gurus que ficam escrevendo coisas sem sentido ? Deixe isso para o pessoal da imasters, e voltem a escrever artigos sobre flex, ria e coisas mais interessantes.
Trabalho com design de interacao e achei o blog bem legal. Naum conheco mto de design da informacao, mas o flex parece ser mto bom pra isso. De vez em quando mexo com flash e flex. Jah assinei o rss.
Adorei esse artigo. Concordo com quase 100% das afirmações, só discordo que a interface não vai desaparecer por completo, mas esse texto me fez ver que o sentido é esse mesmo. Muito bom.
Olá!
Sou estudante da PUC, curso Tecnologias e Mídias Digitais e estou no último semestre, na habilitação de “Design de Interface”. Gostaria de saber se vc poderia indicar algum autor que apresente o conceito de experience desin ou design colaborativo, pois nosso trabalho final tem como proposta desenvolver um sistema com ferramentas para contrução de uma interface pessoal para dispositivos móveis, onde o usuário tenha interferência e colaboração no design (uma espécie de customização).
Ficaria grata se pudesse nos ajudar!!
Abs.
Daniela
Oi Sean,
Prefiro o bom e velho “charlatão” do que o “pseudo guru”.
Qualquer dúvida, pode perguntar.
Oi Felipe,
Seja bem vindo ao blog. Conheço poucos designers de interação no Brasil. Legal a coisa começar a se especializar.
[]s!
Oi Marcão,
Eu também acho que a interface não vai desaparecer por completo. Mas acho que esse deve ser um dos nossos objetivos ao projetar uma interface. Fazer com que ela suma, dando lugar ao conteúdo.
[]s!
Oi Daniela,
Quem criou o termo “user experience” foi o Donald Norman, o sócio do Jakob Nielsen. O Norman tem vários livros bem interessantes e uma visão bem ampla sobre a área. O Nathan Shedroff, o Peter Morville, o James Garret, entre outros, também podem ser tomados como autores referências nessa área.
Sobre design colaborativo… Você já buscou pelo termo “design participativo” (participative design)? Com certeza, vai encontrar bastante coisa. Tem toda uma tradição vinda da Europa que tá sendo “importada” pela turma de design de interação.
Qualquer dúvida, é só me chamar.
[]s!
Adicionar comentário
[...] Ps. Este post também está disponÃvel aqui. [...]
Resumindo (em minha opinião): a Interface é um interprete. Ela “fala” uma linguagem que o usuário conhece e traduz para uma linguagem que o computador conhece. Obviamente, quanto menos você precisar deste interprete melhor a comunicação.
Os usuários conhecem “a linguagem das interfaces” por convenções. Hoje em dia todos sabem como funciona uma barra de Scroll por exemplo (uma das melhores convenções de UI para mim). O interessante da evolução é notar que, no lugar de ensinar os usuários, o que se busca agora é ensinar os computadores.
Por fim, eu acho que num futuro não muito distante veremos o Mouse como algo totalmente ultrapassado.
Excelente o artigo. Parabéns!
Oi Beck,
Na minha opinião, dificilmente a gente acharia uma metáfora melhor. Numa conversa entre 2 pessoas de diferentes idiomas, que estivesse sendo intermediada por uma terceira pessoa, quanto menos esta aparecesse, mais fluído seria o diálogo, fazendo com que os participantes possam focar no que realmente importa, no conteúdo das mensagens, ao invés da interpretação. Acho que esse “princípio do desaparecimento” também deve guiar a própria prática da interpretação, enquanto atividade profissional (lembrei das conferências da ONU, onde o interprete fica literalmente fora da visão dos envolvidos na conferência).
Valeu pelo incentivo!
[]s!
Não entendi picas deste post. Seria falta do que escrever e então temos pseudos gurus que ficam escrevendo coisas sem sentido ? Deixe isso para o pessoal da imasters, e voltem a escrever artigos sobre flex, ria e coisas mais interessantes.
Trabalho com design de interacao e achei o blog bem legal. Naum conheco mto de design da informacao, mas o flex parece ser mto bom pra isso. De vez em quando mexo com flash e flex. Jah assinei o rss.
Adorei esse artigo. Concordo com quase 100% das afirmações, só discordo que a interface não vai desaparecer por completo, mas esse texto me fez ver que o sentido é esse mesmo. Muito bom.
Olá!
Sou estudante da PUC, curso Tecnologias e Mídias Digitais e estou no último semestre, na habilitação de “Design de Interface”. Gostaria de saber se vc poderia indicar algum autor que apresente o conceito de experience desin ou design colaborativo, pois nosso trabalho final tem como proposta desenvolver um sistema com ferramentas para contrução de uma interface pessoal para dispositivos móveis, onde o usuário tenha interferência e colaboração no design (uma espécie de customização).
Ficaria grata se pudesse nos ajudar!!
Abs.
Daniela
Oi Sean,
Prefiro o bom e velho “charlatão” do que o “pseudo guru”.
Qualquer dúvida, pode perguntar.
Oi Felipe,
Seja bem vindo ao blog. Conheço poucos designers de interação no Brasil. Legal a coisa começar a se especializar.
[]s!
Oi Marcão,
Eu também acho que a interface não vai desaparecer por completo. Mas acho que esse deve ser um dos nossos objetivos ao projetar uma interface. Fazer com que ela suma, dando lugar ao conteúdo.
[]s!
Oi Daniela,
Quem criou o termo “user experience” foi o Donald Norman, o sócio do Jakob Nielsen. O Norman tem vários livros bem interessantes e uma visão bem ampla sobre a área. O Nathan Shedroff, o Peter Morville, o James Garret, entre outros, também podem ser tomados como autores referências nessa área.
Sobre design colaborativo… Você já buscou pelo termo “design participativo” (participative design)? Com certeza, vai encontrar bastante coisa. Tem toda uma tradição vinda da Europa que tá sendo “importada” pela turma de design de interação.
Qualquer dúvida, é só me chamar.
[]s!

